José Cláudio Filho, que chegou a ingerir álcool puro, hoje se dedica a um projeto com 50 crianças

Quem vê hoje o corredor José Cláudio Filho, 60 anos, com suas passadas firmes e servindo de exemplo para as 50 crianças de um projeto de atletismo em Guaiçara não imagina a difícil estrada que o atleta trilhou. Essa é mais uma das impressionantes histórias de vida que estarão presentes na ABDA Urban Run, em 3 de fevereiro, na av. Getúlio Vargas, corrida organizada pela Associação Bauruense de Desportes Aquáticos (ABDA).

O funcionário público da Prefeitura de Guaiçara nasceu, em 1958, em Pernambuco, onde foi criado sem pai. Com uma infância difícil, chegou a pedir esmola para comer e trabalhou na roça. Aos 10 anos, conheceu a cachaça e o cigarro, vícios que o acompanharam por 38 anos.

Em 1981, veio para Guaiçara, onde casou, jogou futebol amador e praticou artes marciais. Porém, o alcoolismo e o tabagismo o impediam de manter uma rotina adequada de treinos e competições. José Cláudio acabou abandonando tudo e por 38 anos bebeu tanto que chegou a dormir nas ruas e perder contato com a família.

José Cláudio hoje se dedica às aulas para as crianças de um projeto em Guaiçara

José Cláudio hoje se dedica às aulas para crianças em Guaiçara: atleta vira com elas para correr na ABDA Urban Run

Mas, em 1999, a vida de José Cláudio começou a mudar. Foi quando ele viu uma turma de atletas passarem correndo pela rua e tentou segui-los. “Estava tão bêbado que não consegui. Mas eles me desafiaram e falaram que no dia seguinte iriam passar de novo e era para eu estar sóbrio e ir com eles”, relembra o corredor.

A vontade de José Cláudio de estar em meio àqueles atletas foi tão forte que ele conseguiu, no dia seguinte, fazer parte do treino. “Eu que cheguei a tomar álcool puro, daquele momento em diante, decidi mudar de vida e nunca mais parei de correr”, comemora.

Foi com o foco no atletismo que José Cláudio conseguiu abandonar os vícios e reconquistar tudo o que havia perdido, inclusive o respeito das pessoas e o contato com a família. “Tive muitas dificuldades, às vezes levantava à noite tremendo, chorando, com medo na fase da abstinência, mas a vontade de seguir o atletismo e ter de volta minha vida foi maior” conta o atleta.

José Cláudio com a filha Ana Laura: muito tempo longe da família por causa do alcoolismo

José Cláudio com a filha Ana Laura: muito tempo longe da família por causa do alcoolismo

Corridas

De lá para cá, José Cláudio já participou de inúmeras corridas. Só na São Silvestre, foram 17 participações. Em 2018, fez o percurso em 1h14, ficando na 26ª colocação entre 100 atletas na sua categoria 60-64 anos.

O atleta que prefere provas mais longas já correu pelo Brasil inteiro. Participou da Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro em 4 anos seguidos, Meia Maratona Internacional de São Paulo, Corrida das Pontes no Recife, Corrida da Serra da Graciosa em Curitiba, onde conquistou o 3º lugar.

José Cláudio que hoje dá aulas para crianças se define como um alcoólatra em recuperação. “Costumo dizer que a bebida está na distância do meu antebraço, cada dia que não bebo é maravilhoso, vivo sóbrio um dia de cada vez.”

José Cláudio mostra a pista onde treina as crianças e sonha em vê-la com melhorias

José Cláudio mostra a pista onde treina as crianças em Guaiçara e sonha em vê-la com melhorias

Livre dos vícios, o atleta retomou contato com a família e está feliz ao lado da filha Ana Laura, de 32 anos. Também teve sua história contada pela escritora Cyda Zola no livro Ponto de Partida, com patrocínio da AES Tietê. “Até hoje corro levando o nome da AES Tietê, pois sou muito grato. Me ajudaram com o livro e todo material e vestimenta para as crianças do projeto.”

Sobre os planos para o futuro, José Cláudio é humilde e diz que só pretende continuar ajudando as crianças. “Meu sonho é ver a pista de atletismo onde dou aulas pelo menos com pó de pedra.”

Para quem luta contra o vício, ele deixa uma mensagem. “O melhor remédio é o ouvido, ouça o que as pessoas e a sua família falam. Tenha coragem e determinação, pois nós vivemos de 24 em 24 horas.”

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